A indústria de defesa brasileira ganhou um novo material de referência nesta semana. A Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e a Fundação Instituto de Administração, da USP, lançaram os Cadernos Prospectivos da Base Industrial de Defesa (BID).
A publicação reúne oito estudos sobre as transformações tecnológicas, organizacionais e ocupacionais que devem atingir segmentos estratégicos do setor nos próximos anos. Também aponta as competências que serão exigidas dos profissionais e recomenda formas de aproximar a formação das demandas da indústria.
Segundo a CNI, os cadernos devem orientar empresas, instituições de ensino, formuladores de políticas públicas e demais integrantes do ecossistema de defesa na preparação para a próxima década.
Setor vai além da fabricação de armas
Para o gerente do Observatório Nacional da Indústria, Rafael Sousa, a indústria de defesa não se resume a armamentos. Ele descreve um ecossistema formado por empresas, universidades, centros de pesquisa, órgãos públicos e profissionais que desenvolvem equipamentos, tecnologias e serviços de proteção e segurança.
Entre os produtos, estão aeronaves, navios, veículos, satélites, radares, drones, equipamentos de proteção e soluções de segurança digital.
Sousa lembra que muitas dessas tecnologias têm uso civil. “Os satélites, por exemplo, podem apoiar na agricultura e no monitoramento de queimadas. Os drones podem ser usados na logística”, afirma. Segundo ele, radares e sistemas de comunicação também ajudam na prevenção de desastres, e a inteligência artificial nasceu de iniciativas do setor de defesa.
Mais de 120 tecnologias emergentes
Os estudos identificaram mais de 120 tecnologias emergentes e os novos perfis profissionais que devem ganhar destaque com a incorporação delas à indústria.
Para Sousa, o desafio é transformar conhecimento em capacidade profissional e industrial. Ele defende a atualização de currículos, a criação de cursos e programas de especialização e requalificação e o reforço da formação prática em ambientes tecnológicos.
“Isso vai demandar uma grande articulação entre as Forças Armadas, a indústria de defesa e instituições como o SENAI, universidades e centros de pesquisa”, afirma.
Segmentos e tecnologias transversais
Os cadernos analisam oito segmentos da Base Industrial de Defesa:
- aeroespacial;
- munições, propelentes, explosivos, mísseis e foguetes;
- armas e equipamentos de controle de tiro;
- plataformas militares marítimas e fluviais;
- plataformas veiculares militares terrestres;
- defesa cibernética;
- sistemas C4ISTAR (rede integrada de comando, controle, comunicações, computadores, inteligência, vigilância e reconhecimento);
- uniformes militares.
Algumas tecnologias aparecem em quase todos os segmentos. Veja a presença de cada uma:
- inteligência artificial: 100%;
- cibersegurança: 100%;
- engenharia digital: 87,5%;
- integração digital do ciclo de vida: 87,5%;
- sensores inteligentes: 87,5%;
- gêmeos digitais: 87,5%;
- sistemas autônomos: 75%;
- arquiteturas abertas: 75%;
- manufatura aditiva: 75%;
- novos materiais: 75%.
Novas competências no mercado de trabalho
De acordo com as pesquisas, a disseminação das tecnologias emergentes deve reconfigurar a organização do trabalho. Atividades concentradas em processos operacionais tendem a evoluir para funções ligadas à integração de sistemas, análise de dados, tomada de decisões e gestão de ambientes complexos e conectados.
Com isso, deve crescer a demanda por profissionais com visão sistêmica, competências digitais e capacidade de integrar conhecimentos de diferentes áreas.
Conhecimentos
- Engenharia de Sistemas;
- tecnologias digitais;
- cibersegurança;
- confiabilidade;
- gestão do ciclo de vida;
- governança e gestão.
Habilidades
- analisar, integrar, monitorar e validar sistemas;
- analisar dados;
- resolver problemas complexos;
- tomar decisões baseadas em evidências;
- aprender continuamente.
Aptidões
- pensamento analítico;
- pensamento sistêmico;
- adaptabilidade;
- atenção seletiva;
- percepção de problemas;
- responsabilidade;
- estabilidade emocional.
Desafios e oportunidades
A publicação lista desafios para o país: dependência tecnológica externa, financiamento insuficiente e irregular, fragmentação da cadeia produtiva, escassez de competências profissionais e vulnerabilidades cibernéticas.
Os estudos também veem oportunidades. Acompanhar as tendências pode impulsionar a inovação, fortalecer a soberania nacional em áreas estratégicas, ampliar a cooperação entre empresas, governo e instituições de ensino, formar talentos e reforçar a defesa cibernética.
Exportações crescem 29%
Dados do Ministério da Defesa compilados pela CNI indicam que as exportações da Base Industrial de Defesa subiram 29% no primeiro semestre deste ano. As autorizações para exportação somaram US$ 1,8 bilhão.
Produtos brasileiros do setor já chegaram a 150 países, por meio de 130 empresas exportadoras. Entre os itens mais vendidos estão aeronaves e componentes, explosivos, bombas, armamentos leves, munições e serviços de engenharia ligados a produtos de defesa de alto valor agregado.
Atualmente, a Base Industrial de Defesa e Segurança representa 3,41% do PIB brasileiro.
Fonte: Brasil 61



